Pensou em desistir do trabalho, dos estudos e da vida burocrática que levava. Mas era um conformado.
Voltou em si e estava cercado de pessoas desconhecidas, que lhe falavam algo sobre a origem da linguagem COBOL. Aquela vida era uma discrepância em relação aos seus desejos e sonhos. Pensou na praia deserta em que esteve no último verão, na brisa marinha e das bebedeiras homéricas. Novamente se viu cercado por pessoas sedentas em ouvir o que tinha a dizer.
Trajano era alto, magro e com um olhar vazio, que olha para o nada, que lhe dava um ar de intelectual, ainda mais com aqueles óculos de aro fino. A profundidade de seus pensamentos o diferenciava das pessoas daquela reunião. Sua mente vagava por horizontes até então desconhecidos. Até que ponto poderá aguentar aquilo?
Cumpriu seu papel de profissional de informática e relatou seus estudos sobre as origens das linguagens de computador aos demais. Todos ouviram atenciosamente, o que deixava Trajano um tanto quanto rubro. Sua natureza solitária não permitia que ficasse a vontade com as pessoas. A sua timidez exacerbada se tornava uma espécie de imã ao fundo do poço. Não conseguia mais distinguir o que fazia ali parado, sendo observado por todos.
Desmaiou. Acordou na enfermaria com a cabeça latejando,sem entender o que havia acontecido. A enfermeira chamou “aquilo” de mal súbito, porém, na sua cabeça tudo aquilo era o reflexo do nervosismo e da pressão exercida sobre ele. De fato, não aguentava mais o convivio com aqueles trastes, como costumava dizer.
Tratou de ir embora para sua confortável casa,e descansar e quem sabe nunca mais acordar.
Acordou renovado, pronto para mais um dia de extrema burocracia e explicações funestas. Não sabia como iria ser recebido por seus colegas e por seu chefe, um legitimo filho da puta. Afinal de contas, ontem era uma apresentação de suma importância para empresa em que trabalha. Fora designado para a apresentação aos clientes e desmaiara, transformando todas as explicações em escuridão.
De fato, sua moral não estava nada boa com o pessoal do setor e muito menos com seu chefe que o demitira sem maiores explicações. Nada a fazer. Desistir. Desejos reprimidos se tornavam incontroláveis. Não conseguia mais agir de forma coerente com sua pessoa. Todos haviam especulado seu motivo para o desmaio. Era um drogado, um bêbado inverterado de última categoria, que não vale o chão que pisa, era o que todos pensavam.
Não tinha amigos, seus pais morreram a dois anos atrás. Sem mulheres e sem filhos. Nem sequer um animal para estimar. Apenas o desespero de um desempregado. Não estava entendo o motivo daquele julgamento que fora condenado. Nunca dera um motivo para pensarem aquilo dele. Era sucinto, educado com todos. Nos vinte e dois que trabalhou naquela empresa nunca se envolvera em nenhum atrito. Porquê, se peguntava. Não era merecedor daquele sofrimento atroz.
Pensando melhor e mais profundamente durante a semana, Trajano não se permitia mais ficar sofrendo e chorando por um emprego que nunca o satisfazera. Apesar da alta remuneração. Viu seu reflexo no espelho e enxergou algo que não esperava. Coragem para fazer. Olhou dentro dos seus olhos e obteve a força que também necessitava.
Trajano teve acesso ao endereço correto. Arrumou toda parafernália que necessitava. Desde cordas à alcool. Sem esquecer das gilletes. Chamou o táxi. Enquanto o táxi se locomovia pelas ruas, pensou que poderia ser a última vez que veria aquelas praças e a movimentação que estava acostumado naquele bairro.
Estava em frente á residencia, não tinha mais volta. Iria assassinar seu antigo chefe. Mas iria tortura-lo antes. Rezou para que seus filhos e sua esposa não estivessem em casa. Mas estavam. Agora é tarde, não dá mais para retornar. A não ser que...
Chorando copiosamente e sem aquela força que obteve olhando-se nos olhos, Trajano crava a gillete em seu pescoço, fazendo o sangue jorrar. Morreu sem ao menos deixar algum bilhete e foi enterrado como um indigente.
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