Acordado, encolhido, tentando encontrar uma sensação que significasse proteção, percebeu que chovia. Seus planos, de interromper o convívio dele com ele mesmo, foram duramente amputados por uma simples chuva.
Ele compreendia que suas caminhadas, observando as outras pessoas, não o tiravam de sua condição de espectador, mas os cheiros e as temperaturas humanas ajudavam-no a criar uma falsa companhia. Nesse dia, por causa das condições climáticas, não havia outra opção, teria que passar seu tempo com ele mesmo.
Deitado, sentindo uma profunda frustração por não ter encontrado aquela posição que representaria uma mão amiga, um calor de ser humano conhecido, que lhe faria sentir protegido, levantou-se.
O calor de seu corpo em contato com o frio da casa, quando abandonou as cobertas, era tão mais real que sua cama aquecida, apenas por ele mesmo, que foi com susto e medo, que sentiu esse choque térmico, comparável com a realidade.
Parado, pensando em ocupar seu tempo com atividades físicas que não o permitissem pensar, sentir angústia, percebeu seus pés plantados no tapete, viu que seu rosto, por ironia, estava exatamente em frente ao espelho, aquele espelho que não era capaz de refletir nada nem ninguém além de sua própria cara. Foi quando recebeu esse tapa, agressão muito dolorida. Não podia ser o espelho o responsável por essa violência, apesar de nesse momento, ele preferir ter a ilusão de que algo inanimado o tivesse atingido. Já que a verdade era que encontrara a solidão, não essa solidão que se sente todos os dias por alguns momentos, uma outra que era a sua mais concreta companhia.
Sentado no sofá, sentiu um vazio que nada, nem comidas, nem bebidas, nem ocupações poderiam preencher. Ouviu as buzinas e as vozes da rua, sem compreender que jamais teriam alguma conexão com sua vida. A solidão e o silêncio de sua casa, único espaço realmente seu, eram muito mais verdadeiros que os acontecimentos de fora.
Sentindo uma dor muito mais forte e de olhos arregalados, se escutou pronunciando a palavra verdade, sem entendê-la de fato, tentou se proteger dela.Nesse dia, que havia começado com a solidão e essa espécie de verdade que não entendia.
Os barulhos dos carros machucavam seus ouvidos, o contato com as pessoas desconhecidas, pelas ruas, fazia com que ele sentisse náuseas.Perplexo por ter pensado que o contato com a realidade, fora de sua casa, seria capaz de escondê-lo de seus próprios pensamentos. Voltou a se deitar, precisaria dormir, só porque sofrera, não significava que o dia seguinte esperaria ele se recuperar, para então começar.
Sabia disso, o que também aumentava seu sofrimento. Tentando dormir, desejava apenas que não houvesse novas verdades e solidões mais profundas a serem descobertas.