terça-feira, 13 de julho de 2010

Lembrança

Entrou e observou o rosto de cada um. Os olhos rútilos não disfarçavam sua situação. Era um louco. As mão trêmulas dentro dos bolsos e o andar arrastando os pés pelo chão, não disfarçava o inevitável. Era também um psicopata em potencial.

A mãe sofreu durante oito anos, entre idas e vindas. As circunstâncias forçaram ele fazer. A tragédia estava anunciada. O dia se transformou em noite. O vendaval e as gotas pesadas oriundas do céu negro, transformaram o dia e o humor de Camilo.

A tempestade exasperante e barulhenta, o sufocava. O raciocíonio divagava absurdos inimagináveis, como matar a própria familia. Estava inócuo, vazio. Nada sentia, apenas imaginava o após. O transtorno em relação as suas cogitações estava piorando. Caminhava de um lado para o outro dentro de sua espaçosa casa. Sua mãe estranhava, mas não perguntava absolutamente nada, com medo de retaliações violentas.

Desde pequeno Camilo passou por tratamentos psicológicos, para tratar dessa fúria insana que brotava dentro de sí, inexplicavelmente. Podia estar bem e conversando, mas no minuto seguinte estava tentando botar fogo em sua casa. Já havia passado uma temporada no manicômio. Os seis meses que lá estivera, nada ocorreu. Parecia inofensivo e até quieto em demasia. Pensamentos afloraram com o tempo.

Preso, dentro da masmorra úmida, coberta por animais rastejantes. A garganta rasgada e os olhos no fundo do seu rosto magérrimo. Parecia um judeu na Segunda Grande Guerra. As roupas imundas e o cheiro acre, ardia as narinas de quem passasse em frente da prisão escura. Pensamentes lancinantes e visões de um corpo em chamas.

Já não dormia a dias. A comida era podre. A atmosfera pesada. Falava aos enfermeiros que houvia todas as noites barulhos de ossos quebrando. A degradação humana era visivel. Aquele homem se transformou em lixo. Restos da humanidade.

Havia noites que Camilo berrava sem parar. A noite inteira. Desesperado. Só parava com sessões de choques.

A força que lhe restava era a que usava para berrar. Não queria comer. Bebia sua própria urina. Alguns enfermeiros tinham medo dele. Todos falavam que ele era capaz de tudo. Lembrava-se de sua infância quando apanhava. As cicatrizes não estavam secas.

Alucinações. Não aguentava mais a sua nefasta existência. Não podia conviver com seu passado. Agora sua vida acabou e não poderá mais rever sua familia. O arrempedimento não mata, mas corroe. Vomitava só em lembrar o que havia feito. O fogo brilhava.

Não falava com ninguém. Era forçado a falar com os temerosos enfermeiros. Espancamentos sempre foram recorrentes nos Hospícios. As feridas estavam aumentando. Sua orelha coberta por fungos. Quando entrou aqui á dez meses atrás parecia saudável, fisicamente. Pele e osso. Dor e miséria. Insanidade e tortura. A loucura completou o último estágio.

Eu fui o último a falar com o Camilo, ou o que restou dele. Não me reconheceu. Camilo estava magro e sem cabelo, não que fosse calvo. Os lábios estavam rachados e os braços finos, com a enorme queimadura. Traumas daquele dia. Meu rostou parecia arder quando eu vi Camilo. Pobre Camilo.

Suas cinzas foram jogadas no rio em que pescávamos, quando éramos crianças. A lembrança da última visita não me larga. Está incrustada na memória. Só a morte irá apagar. E pelo tempo que me resta, logo esquecerei de tudo.

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